No dia 31 de dezembro de 2020, o
Reino Unido deixa oficialmente a União Europeia. O processo de separação,
conhecido como Brexit, foi oficializado em janeiro deste ano, e levanta
expectativas sobre possíveis impactos nos negócios com o restante do mundo. O
futuro das relações comerciais com os britânicos ainda é indefinido, pois muito
depende de como será concluído o acordo com a União Europeia neste período de
transição pós-Brexit. No entanto, já é possível sondar perspectivas, que, no
caso do Brasil, espera encontrar oportunidades para abertura de novos mercados.
O agronegócio tem interesse em
estabelecer relações comerciais com um Reino Unido independente. Se hoje a
parcela de exportações brasileiras para o país é relativamente pequena – em
2019, a participação foi de 1,31%, segundo dados de comércio exterior do
Ministério da Economia –, com a saída da União Europeia, abrem-se espaços que
podem ser ocupados.
A possibilidade de melhoria das
condições de competitividade dos produtos brasileiros levanta expectativas
positivas. Por outro lado, há receio sobre um possível aumento de custos
logísticos e alfandegários e outros entraves relacionados às exportações via
Europa. Esses e outros pontos foram levantados por meio do projeto de
monitoramento comercial denominado “Brazil
Brexit Watch” (em português, Observatório Brasileiro do Brexit), ação
coordenada da Embaixada do Brasil em Londres e da Agência Brasileira de
Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil).
Em um primeiro momento, o Brasil
não é uma prioridade para os britânicos. Depois da União Europeia, cujas
negociações ainda acontecem, o interesse é pelo mercado dos Estados Unidos,
Nova Zelândia, Austrália e Japão.
Apesar disso, para o adido
agrícola brasileiro no Reino Unido, Augusto Billi, o cenário para os
brasileiros se mantém positivo. “O Brasil não está, de início, como prioridade,
mas a economia brasileira se torna relevante para o Reino Unido. É um grande
mercado que eles não devem negligenciar, em termos políticos, inclusive. Eu sou
otimista, chegará a hora que vamos fechar acordos e temos que lutar por isso.
Nós estamos avançando em conversas na área agrícola, nessa intenção de
pavimentar a estrada para uma aproximação mais profunda”, afirma Billi.
Na opinião da chefe do
Departamento de Agricultura na Embaixada do Brasil no Reino Unido, Carolina Von
Der Weid, o estabelecimento de um acordo entre os dois países depende, em
grande parte, do posicionamento e mobilização do setor privado brasileiro. “No
momento em que a decisão no Brasil for tomada para abrir essa negociação ou,
pelo menos, para dar um pontapé concreto, ou seja, um diálogo de algo
exploratório, que é a primeira fase da negociação, é muito improvável que os
britânicos neguem”, aponta.
Oportunidades para o Paraná
O Reino Unido é um grande
importador de alimentos – cerca de 50% do que é consumido no país –, o que
desperta os olhares do agronegócio paranaense. No setor de frutas, 83% são
importados e, destes, 60% vêm da União Europeia. Segundo o adido, caso o acordo
entre Reino Unido e União Europeia resulte em uma redução dos fluxos de
comércio ou em um acesso mais favorável ao mercado britânico, as frutas
brasileiras se tornam mais competitivas, principalmente cítricos. Atualmente, a
pauta de exportações do Paraná para o Reino Unido é centrada no complexo
carnes, com 58%, seguido por produtos florestais, com 25%, e café, com 7%.
De acordo com o Departamento de
Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento
(Seab), a produção de laranja do Paraná é uma das mais competitivas do país,
ocupando a terceira posição no ranking nacional. Do total produzido, 95% vão
para a exportação. Além da laranja, o limão e a tangerina também se destacam na
produção estadual, fazendo com que a citricultura represente mais de 60% da
colheita de frutas no Estado.
Um dos destaques entre os
consumidores britânicos é o interesse por produtos sustentáveis, orgânicos e
com maior valor agregado. Segundo Billi, o apelo sustentável tem entrada
garantida tanto na Europa como no Reino Unido e é uma oportunidade para o
desenvolvimento de novas estratégias de exportação. Produtos regionais, como
nozes e o famoso pinhão, também chamam a atenção dos britânicos, que gostam de
“pagar pela experiência”.
Ainda, o mercado de produtos
vegetarianos e veganos vêm ganhando enorme espaço no Reino Unido, com
crescimento exponencial do número de britânicos adeptos a essas formas de
consumo. Na mesma linha, estão os produtos cruelty
free (em português, livre de crueldade), que se refere à produção que não
envolve testes em animais.
De acordo com o adido, há
movimentação para abertura de mercado para carne suína, pescados, ovos e
lácteos – este último atualmente fechado para a União Europeia. As negociações
são voltadas para a efetivação de um prelisting para as exportações, ou seja,
um sistema de listas pré-autorizadas de estabelecimentos exportadores.
Com relação ao protecionismo
agrícola de ordem sanitária, Carolina aponta a tendência de um alinhamento com
o que já é praticado na União Europeia. “Os britânicos serão bastante
rigorosos, mas, também, são muito pragmáticos com o que interessa. Eu acredito
que vai ser uma conversa boa, mas não necessariamente fácil”, adianta.
Sobre o complexo carnes, de um
modo geral, o acesso ao mercado britânico é dificultado pela forte concorrência
com a Irlanda, principal fornecedor de carne in natura. O futuro reconhecimento
internacional do Paraná como área livre de febre aftosa sem vacinação, pela
Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) em 2021, pode ser um facilitador
nesse sentido. No caso da carne suína, a aprovação de sistemas separados de
criação pelo uso da ractopamina é o principal entrave.
Apesar dos obstáculos em relação
à competitividade e questões sanitárias, para os britânicos, a principal
variável de compra ainda é o preço, principalmente em relação às carnes. “Eles
sabem que o produto brasileiro é de alta confiabilidade, que a entrega é feita
quando precisa e conforme acordado, e tem um ótimo preço. Para os grandes
atacadistas, isso ainda é definidor”, salienta Carolina.
Termos e tarifas
Durante o período de transição do
Brexit, permanecem vigentes no Reino Unido as tarifas aplicadas a União
Europeia. A partir de 1º de janeiro de 2021, as alterações acontecem com base
na nova política tarifária britânica, denominada “UK Global Tariff”.
A média de tarifas para produtos agropecuários foi reduzida de 15,9% para 10,6%. Algumas linhas no setor de frutas tiveram redução de quase um ponto percentual da alíquota de importação. Outras reduções de interesse para o produtor brasileiro são a eliminação de tarifas para produtos como milho, gelatina, óleos essenciais, sucos e extratos vegetais, leveduras, tecidos de algodão e couro. Mais detalhes sobre as mudanças nas tarifas e outros termos, como declarações e documentações, podem ser encontrados no site http://bit.ly/BI1523_Brexit.
A notícia Reino Unido: saída da União Europeia abre caminho para o Paraná apareceu pela primeira vez em Sistema FAEP.
Fonte: Sistema FAEP











