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CRESCIMENTO NAS EXPORTAÇÕES DO RS

País de dimensões continentais, a China vem ampliando vorazmente a importação de produtos agropecuários gaúchos e brasileiros, com negócios crescendo, em média, 26,1% e 23,8%, respectivamente, nos últimos 10 anos. O valor exportado pelo RS à China saltou seis vezes desde 2004 e chegou a US$ 4,3 bilhões no ano passado. No Brasil, a alta foi de sete vezes no mesmo período, totalizando US$ 22,1 bilhões.

O avanço se dá, em especial, pela expansão da soja, mas está longe de significar que a curva ascendente do apetite chinês bateu no teto. Pelo contrário, as portas entreabertas ou fechadas a alguns setores fazem dos asiáticos um mercado de potencial superlativo.

Um dos setores que projeta retomada é o da carne bovina. No fim de maio, acordo assinado entre a presidente Dilma Rousseff e o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, pôs fim ao embargo à importação da proteína brasileira, que vigorava desde dezembro de 2012. O anúncio da liberação de oito frigoríficos em maio, incluindo um no Estado (Marfrig, em Alegrete), animou o setor.

Segundo o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Antônio Jorge Camardelli, a expectativa é de o país embarcar pelo menos 60 mil toneladas até o fim do ano, volume 253% superior ao exportado em 2012. Mais nove plantas podem ser habilitadas ainda neste mês, incluindo outra unidade da Marfrig no RS, em Bagé.

– A reabertura do mercado chinês foi um presente de Natal antecipado. Cremos que, em 2016, a China estará entre os três maiores importadores da carne bovina brasileira. É um mercado perene, que paga bem. Temos de ser responsáveis com a manutenção do status sanitário – diz Camardelli.

Na avaliação do presidente do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados no Rio Grande do Sul (Sicadergs), Ronei Lauxen, em um primeiro momento, o fim do embargo à carne bovina deve ter “resultado tímido” no Estado. Isso porque os frigoríficos gaúchos argumentam que há escassez de matéria-prima e dificuldades para abastecer o mercado interno. No primeiro quadrimestre de 2015, houve queda de 8% nos abates, pois muitos pecuaristas reduziram a produção para investir em soja.

Com 1,36 bilhão de habitantes, quase 20% da população do planeta, a China tem um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 9,24 trilhões – mais de quatro vezes do que o brasileiro. Além da soja, é o maior consumidor mundial de arroz e carne suína, setores ainda inexpressivos na pauta de exportações do agronegócio gaúcho, mas que esperam mudar essa condição.

Missão oficial em pauta

Apesar de ter uma planta habilitada, o Estado não exporta carne suína desde 2006 à China, que é o principal produtor mundial. Diretor-executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Suínos do RS (Sips), Rogério Kerber diz que o motivo é que, como os chineses não compram cortes e preferem mercadorias de baixo valor agregado, como miúdos, as empresas têm optado por mercados que paguem melhor:

– Se houver queda na produção e migração da população rural para áreas urbanas, no médio e longo prazo há possibilidade de a China virar um mercado mais atrativo – afirma Kerber.

De olho em oportunidades, o governo estadual planeja fazer ainda em 2015 uma missão ao país para tentar alavancar as vendas externas.

– O mundo alimentar avança para a Ásia e a África. A Ásia, em especial, está em crescimento acelerado. As pessoas estão saindo da pobreza e convertendo essa melhor condição econômica em melhor condição alimentar – avalia o economista-
chefe da Federação da Agricultura do RS (Farsul), Antônio da Luz.

Persistência para atracar

Foram seis anos de negociação até a muralha cair. Francisco Turra, hoje presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), lembra que, na tentativa de reabrir o mercado chinês para a carne de frango, até uma revista em mandarim foi produzida, além, é claro, de inúmeras viagens à China. Mas o esforço compensou: o volume exportado cresceu 87,2% entre 2010 e 2014. No ano passado, foram embarcadas quase 230 mil toneladas, e a meta para 2015 é alcançar as 300 mil toneladas.

– A China é diferenciada. Lá, tudo é superlativo. Só isso já é um grande valor. E eles estão com problema sério para fazer agricultura em função da escassez hídrica. Os chineses estão confiando muito no Brasil, e a relação é muito boa. O que tem que haver é persistência. Não se pode imaginar que em uma missão as coisas vão se resolver – avalia Turra.

Segundo o dirigente, atualmente 29 frigoríficos avícolas – cinco no Rio Grande do Sul – têm aval para exportar à China. A expectativa é de que mais sete sejam liberados ainda neste ano, incluindo dois no Estado.

Diretor-executivo da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), José Eduardo dos Santos reclama da demora na habilitação de plantas, o que emperra o crescimento das exportações. Em 2014, o RS respondeu por 10% do total das vendas externas de carne de aves do Brasil para os chineses.

– É um mercado importantíssimo. A China e os EUA são os principais produtores, mas ambos têm problemas sanitários, como a gripe aviária, o que aumenta a dependência de mercados como Brasil. Temos condições e interesse de exportar mais, mas falta celeridade na habilitação – lamenta.

Levantamento elaborado pela Farsul mostra que, das principais mercadorias enviadas pelo RS para o país asiático, a carne de aves foi a que teve o maior crescimento desde os anos 2000. Em receita, o aumento médio foi de 4.267%. No mesmo período, o avanço da soja em grãos foi de 67,5% e o do fumo não manufaturado, 33,2%.

– Qualquer acordo tem impacto positivo nas exportações, mas há um caminho bem longo até que a aliança política se reflita nas estatísticas – pondera Andréia Adami, pesquisadora do Centro de estudos avançados em Economia Aplicada (Cepea)

Parceria ancorada pela soja

Durante o ano passado, o complexo soja foi responsável por 84,4% de toda a receita obtida pelo Estado com a exportação de produtos agropecuários para a China. E o apetite chinês pela oleaginosa tende a continuar em alta, conforme projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Em 2015, o país asiático deve produzir 11,8 milhões de toneladas e consumir um volume 7,3 vezes maior: 85,9 milhões de toneladas.

Mas para ampliar os negócios, os produtores gaúchos terão de focar no aumento da produtividade, afirma o economista Guilherme Risco, da Fundação de Economia e Estatística (FEE). Para ele, essa é a alternativa porque a área plantada no Estado está próxima do limite:

– A dependência de um só produto é ruim, porque fica muito suscetível aos impactos do clima, assim como a concentração em um único país -afirmou.

A barreira da fronteira agrícola tem como efeito a queda na participação do Estado nas vendas externas do Brasil à China. Comparada a 2007, a fatia gaúcha na receita caiu 10,2 pontos percentuais no ano passado, chegando a 19,3%.

– Não aumentamos a produção no mesmo ritmo do Brasil e estamos atrás de Mato Grosso e Paraná, o que não quer dizer que não estamos crescendo – diz o economista-chefe da Farsul, Antônio da Luz.

Presidente da Associação dos Produtores de Soja do Rio Grande do Sul (Aprosoja-RS), Décio Teixeira acredita que a demanda dos chineses pelo grão será crescente, mas ressalta a dificuldade para ampliar a produtividade devido a custos de produção mais elevados.

Logística é estratégica
Investir em logística pode reduzir perdas e ampliar a competitividade. Teixeira elogia o pacote de concessões recém-anunciado pelo governo, mas teme que privatizar aeroportos, rodovias, ferrovias e portos possa encarecer custos.

No início do ano, a Região Sul ficou de fora do plano de escoamento da safra. Segundo Andréia Adami, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), apesar disso, os Estados do Sul e do Sudeste se beneficiam indiretamente pelo fato de os investimentos no chamado Arco Norte aliviarem a pressão nos portos e estradas das duas regiões:

– Tudo é reflexo do crescimento das exportações. Mas o Brasil precisa de muito mais investimentos para ser mais competitivo lá fora – conclui ele.

Fonte: Zero Hora



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